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FCUL
directo ter, 1 de Fevereiro de 2005
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Entrevista
a Olga Pombo
O
lançamento do livro “Interdisciplinaridade: Ambições e Limites”,
previsto para o próximo mês de Março, é o pretexto ideal para uma conversa
com a professora Olga Pombo. Nesta entrevista a docente da FCUL fala da condição
actual do conhecimento e da universidade e anuncia o tema da próxima obra,
intitulada “Unidade da Ciência. Programas, Figuras e Metáforas”.
info-Ciências - Quando é que ocorreu o lançamento do seu último
livro?
Olga Pombo (OP) - Há pouco mais de dois anos. O meu último livro,
“A Escola, a Recta e o Círculo”, editado pela Relógio d’Água, saiu em
Outubro de 2002. O lançamento teve lugar pouco depois, em Novembro, na
Livraria Eterno Retorno, em Lisboa. Quanto a este, o livro já está à venda
nas livrarias portuguesas e o lançamento está previsto para o mês de Março.
info-Ciências - Porque é que decidiu escrever sobre a
interdisciplinaridade?
OP - É uma decisão muito antiga. Em primeiro lugar, tem a ver com o
meu trabalho sobre Leibniz. O meu primeiro livro, “Leibniz and the Problem
of a Universal Language”, publicado na Alemanha, em 1987, apontava já para
um programa universalista de unificação dos conhecimentos. Profundamente
marcado pela ampla racionalidade barroca do século. XVII, esse projecto teve
em Leibniz um defensor exigente, persistente e grandioso. Depois, no projecto
“Mathesis”, entre 1989 e 1991, aqui na nossa Faculdade, trabalhei muito
sobre o tema de interdisciplinaridade. Pensei mesmo dedicar-lhe a minha tese
de doutoramento. Mas, a investigação que fiz nesse contexto permitiu-me
perceber os enormes equívocos e limites de muitas das práticas de investigação
e ensino que se reclamavam da ideia de interdisciplinaridade. Percebi que, sob
a espuma de um projecto de fertilização heurística através do cruzamento
das fronteiras disciplinares, muitas vezes se escondia apenas, ou uma moda frívola,
ou uma espécie de capitulação indolente face às exigências que as
posturas disciplinares implicam. Percebi também que aquilo que de mais
decisivo e empolgante pela palavra interdisciplinaridade se procurava pensar
era ainda o projecto da unidade dos saberes, esse pulsar que opera em
profundidade ao longo de toda a História das Ciências e que orienta todos os
seus esforços cognitivos no sentido de uma compreensão cada vez mais
alargada e unificada do mundo. Foi a esse projecto que dediquei o meu
doutoramento. Uma segunda razão tem a ver com o facto de a questão da
interdisciplinaridade ser quase inevitável para alguém que, como eu, é
professora de Filosofia numa Faculdade de Ciências. Sobretudo porque os meus
maiores interesses em Filosofia se orientaram sempre, desde o meu trabalho
sobre Leibniz, para as questões do conhecimento: da Teoria do Conhecimento à
Epistemologia e à Filosofia das Ciências. Ora, deste ponto de vista, a
interdisciplinaridade é uma realidade incontornável para quem queira pensar
a condição actual do conhecimento. Este livro corresponde a uma espécie de
balanço sobre as ambições e limites do programa interdisciplinar. Daí o
subtítulo.
info-Ciências
- Considera a Faculdade de Ciências um centro difusor de conhecimentos
interdisciplinares?
OP - Sem dúvida. E por diversas razões. Em primeiro lugar por na
FCUL estarem em presença diversas áreas disciplinares. Claro está que o
simples facto de estarem lado a lado, de partilharem o mesmo espaço, não
significa de forma alguma que haja cruzamento, articulação, contaminação
de hipóteses e resultados, abertura para o trabalho desenvolvido pelos
colegas, três portas abaixo no corredor. Mas – e esta seria uma segunda
razão - a verdade é que tem havido um esforço de alguns Departamentos,
Centros de Investigação, personalidades e instituições internas para dar
a conhecer a toda a Faculdade aquilo que cada núcleo de investigação anda
a fazer. Por exemplo, a Info-Ciências tem desempenhado muito bem a parte
informativa dessa tarefa. Isso é já alguma coisa de muito importante. Mas
há outras iniciativas, talvez em número insuficiente, que visam esse mesmo
objectivo: conferências, seminários abertos a toda a Faculdade, mestrados
interdepartamentais, etc. Porém, sem pretender de modo algum diminuir o
valor dessas iniciativas - pelo contrário, enquanto coordenadora do Centro
de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, tenho tentado dar um
contributo nesse sentido, nomeadamente, na organização do Seminário
Permanente de Filosofia das Ciências com sessões mensais durante o ano
lectivo, e no âmbito do projecto da Fundação para a Ciência e a
Tecnologia “Cultura Científica. Migrações Conceptuais e Contaminações
Sociais” – atrevo-me a chamar a atenção para a necessidade de estarmos
conscientes de que este tipo de iniciativas, digamos, de abertura
interdisciplinar, pode corresponder apenas a uma espécie de verniz cultural
com que se disfarça, se ilude, se recalca, ou simplesmente se procura
esquecer uma prática que continua a ser rigidamente disciplinar. Nesse
aspecto, temos ainda muito caminho para andar, tanto do ponto de vista da
investigação como do ponto de vista do ensino. O mais grave a meu ver é a
rigidez dos curricula. O facto, por exemplo, de não haver quase cadeiras de
opção que permitam, aos estudantes, seguir caminhos diversificados de
formação. Esta rigidez curricular tem logicamente efeitos reprodutivos que
não favorecem a abertura de espaço para projectos interdisciplinares, quer
na investigação futura que os actuais estudantes irão fazer enquanto
futuros investigadores, quer no ensino em que os estudantes de hoje vão ser
os professores de amanhã. Estamos a ser vítimas dessa ideia napoleónica,
centralizadora, segundo a qual todos os licenciados numa determinada área têm
que ter uma formação idêntica, cabendo à universidade zelar para que tal
uniformidade se verifique e mantenha. Noutras tradições universitárias,
nomeadamente naqueles que se reclamam da Reforma da Universidade Alemã
feita por Humboldt em 1810 - é o caso dos EUA – a situação curricular
é muito diferente e, do meu ponto de vista, mais adequada às exigências
interdisciplinares do desenvolvimento científico. Humboldt, que se inscreve
na grande Escola Racionalista Alemã que vem de Leibniz, partia de uma
concepção de ciência como esforço racional conjugado, cooperativo,
unificado. Ele compreendeu muito bem que a universidade é uma das figuras
maiores do projecto de unidade das ciências e que, por isso mesmo, deve
abrir-se a todas as aventuras de uma razão polimorfa, multifacetada.
Humboldt era um sábio, um filósofo! Napoleão era um general! Tinha do
saber uma concepção territorial, centralista, imperial. A universidade
devia sobretudo preparar cidadãos competentes prontos a servir o Estado e não
se deixar cativar pelos caprichos de um saber em construção, de uma heurística
sempre imprevisível em suma, uma legião de soldados. Acontece que a
universidade portuguesa ficou do lado errado da história. Será que Bolonha
vai alterar esta situação? Ou será que estamos, uma vez mais, apenas
perante uma operação de cosmética? Mudar alguma coisa para que tudo –
neste caso, o poder das disciplinas - fique na mesma
info-Ciências - Quais são as ambições e
limites que enuncia no seu livro?
OP - Disse já alguma coisa a esse respeito. Talvez apenas
acrescentar duas breves notas. A primeira para dizer que, pela palavra
interdisciplinaridade, se procura pensar um fenómeno decisivo da ciência
contemporânea: o facto de o progresso das ciências, sobretudo a partir da
segunda metade do século XX, ter deixado de se fazer de forma linear, isto
é, ter deixado de resultar de uma especialização cada vez mais funda, mas
ao contrário, e cada vez mais, depender de dispositivos interdisciplinares
de integração, como a transferência de conceitos, a convergência de
problemas, a irradiação de métodos entre diferentes disciplinas. Até
determinado momento da sua história, as disciplinas viveram num regime de
isolamento feliz, de costas voltadas umas para as outras, reclamando cada
uma a dignidade de ciência independente e proclamando a sua autonomia face
a todas as outras. O que teve como efeito uma inaudita e insuspeitada
fragmentação do tecido científico, com consequências profundas ao nível
das práticas, das linguagens, das estruturas institucionais, mas também da
cultura e das mentalidades. Porém, em meados do século XX, essas mesmas
disciplinas revelaram as mais surpreendentes proximidades. Assim se
compreende a emergência de novas ciências nas interfaces ou na confluência
das disciplinas tradicionais. Veja, por exemplo, a Cibernética de Wiener,
ainda nos anos 40, ou a “galáxia” das Ciências Cognitivas, a partir
dos anos 70. Por outras palavras, é o próprio progresso da especialização
dos conhecimentos que vem exigir a articulação interdisciplinar. Esta é,
a meu ver, a estrutura básica da interdisciplinaridade.
A segunda nota decorre da primeira: assinalar que, portanto, a
interdisciplinaridade não resulta de uma decisão voluntária, não é um
projecto subjectivamente fundado, algo que queremos fazer, que temos vontade
de fazer, mas qualquer coisa que se está a fazer, que se vai fazendo,
independentemente da nossa vontade, quer nós queiramos quer não. Podemos
compreender as transformações epistemológicas em curso e desenvolver
esforços que visem acompanhar esse processo - por exemplo, lutar pela
constituição de centros de investigação interdisciplinares, desenhar
reformas curriculares na universidade ou no ensino secundário – numa
palavra, ir ao encontro de uma realidade que se está a transformar para além
das nossas próprias vontades. Ou podemos não perceber o que se está a
passar, e reagir, ou pela recusa da interdisciplinaridade ou pela sua
utilização fútil, superficial, como se se tratasse de uma simples moda,
passageira como todas as modas.
Pronto. Já me alonguei outra vez. O melhor será não dizer muito mais.
Convidar os colegas a lerem o livro. Deixar alguma coisa para quando o forem
ler. Que acha? Se fizer uma boa síntese, muito completa e desenvolvida,
depois já ninguém o vai ler…
info-Ciências - Qual o tema do próximo livro?
OP - Agradeço-lhe muito essa pergunta. De facto, numa das últimas
páginas do livro agora publicado, anuncio o próximo. O livro está já
muito adiantado. Até já tem um título: “Unidade da Ciência. Programas,
Figuras e Metáforas”. Trata-se agora de regressar da
interdisciplinaridade àquilo que lhe dá sentido, de a inscrever, de forma
arqueológica, mas também regulativa, na ideia de unificação global dos
conhecimentos.